"A VIDA COMO ELA É"

"A VIDA COMO ELA É"

Urologia
Luís Fernando Dip
Urologia
CRM/PR 21524 RQE 348/31412

Filho de uma miscigenação de raças como a grande maioria dos brasileiros, nasci em 1980. E confesso que em berço de ouro. Não por posses financeiras, mas pela família e princípios que me educaram. Perdi meu pai aos 8 anos de idade, vitima de um infarto cardíaco fulminante que, mesmo sabendo tudo o que acontecia, caiu sobre o volante da caminhonete que dirigia, a 3 quadras do hospital. Se foi sem despedir, deixando para trás não apenas uma linda família que o amava incondicionalmente, e a qual também ele mantinha o sustento. Ficavam órfãs 3 crianças - Eu, Nelson e Ana, sua esposa (Luíza) - viúva ainda muito jovem; Iracema e Ayres, meus avós - que agora já não eram pais de um filho único, mas de uma dor excessivamente única e contínua, que levaram consigo até o último dia de suas vidas (no leito da morte).

Lembro-me bem de como foi aquela madrugada, os dias, semanas, meses e anos que se sucederam. Diziam: “o papai ficou dodói, ele não está bem...” eu e a Ana perguntávamos: “mas onde ele foi? Quando ele volta? ” E tínhamos uma falsa impressão de que estava tudo bem, e até gostávamos que tantas pessoas entravam e saíam de casa, aqueles que tínhamos mais proximidade e carinho. Tentavam transformar aquela tragédia em um momento lúdico, mas por pouco tempo. Naquele mesmo dia, diante de rios salgados de lágrimas de tristeza e inconformismo, iniciou-se o funeral daquele que, até aquele momento, fora o meu melhor amigo.

No dia seguinte, após um sono de criança em uma casa toda iluminada, ainda atordoados com o pesadelo que não tinha fim, acordamos e fomos pra casa da minha avó - onde o papai continuava protagonista, mas não mais da vida... e consolava-se mais 24 horas. No outro dia, partíamos de Vilhena/RO em um pequeno avião - eu sentado sobre o caixão - para nossa cidade natal, Araçatuba/SP, de onde meu pai saíra anos atrás para concluir medicina na tão sonhada Faculdade de Medicina de Botucatu. Posteriormente, concluíra sua especialização em Cirurgia Vascular na cidade de São Paulo/SP.

O tempo passou, a família reajustou-se à sua maneira, mas a tristeza e o sofrimento continuavam a nos acompanhar. Lembro-me da minha vó chorando diuturnamente pelos cantos da casa, com seus inseparáveis objetos pessoais - um lenço e um terço. Ganhei um novo pai e uma nova mãe, Tetéu - um tio-avô, casado com a Tata - uma tia-avó. Morávamos todos juntos, 3 crianças e 4 idosos. Minha mãe encarava a vida, com coragem. Trabalhava para prover o pão-nosso-de-cada-dia. A vó Cema complementava com seu “aposento”, artesanatos e doces caseiros impecáveis que vendia (foi a maior cozinheira que conheci).

O tempo passava. A dor nos acompanhava. A terra tentava nos contemplar com os raios do sol em seus ciclos diários... a luz parecia insuficiente. Logo Nelson fora estudar em São Paulo. Ainda assim, o amor entre nós fortalecia os laços familiares. Minha avó sempre fora uma mulher de muita fé. Rezávamos muito. Éramos unidos no amor de Deus. Lembro de quando eu trazia problemas pra casa e a vó Cema dizia: “meu filho, só não há jeito pra morte”. Sábias palavras. Um dia, espontaneamente eu disse: “Vó, tô com saudade do pai!” Ela respondeu: “eu também, meu filho”. Repliquei: “quando vamos ver ele de novo?” Ela respondeu: “meu filho, alguém precisava mais dele do que nós, e tinha que ser com urgência. Como ele era médico...” Então eu disse: “mas ele continua ajudando os outros como sempre fez?” E ela, mãe que educou um filho com amor e dignidade, respondeu: “ele dava a vida pelas pessoas.” Nesse dia, tive a certeza que queria ser como meu pai, embora tivesse ainda 10 ou 11 anos de idade.

As horas de Deus passavam. Minha mãe trabalhando, a gente estudando e a família sobrevivendo. Íamos a missa todos os domingos, onde meu pai era incluído sagradamente nas intenções.

Ainda antes do ensino médio, retornávamos “com a vó” para Araçatuba. Em breve, meu irmão passara no vestibular de medicina da UFMS - Campo Grande/MS. Quatro anos depois, chegou o meu dia. Fui aprovado na Unioeste - Campus Cascavel. Até aqui, era o dia mais feliz da minha vida. Embora muito jovem, sentia intensamente a retribuição em ter abdicado de parte da minha adolescência estudando horas a fio. Minha avó parecia reviver aquele momento especial. Contava a notícia, cheia de orgulho, a todos que encontrava, diariamente, onde quer que fosse... nas calçadas, mercados, encontros voluntários de artesanato e pintura que presidia, aos domingos na feira e até no cemitério. Subi no ônibus rumo ao Oeste do Paraná - Cascavel, inseguro, porém com a sensação do dever cumprido. Mudava-me pro Paraná, estado que me acolheu de braços abertos e me proveu outras famílias - amigos de faculdade - esposa e filhos - família da minha esposa - amigos - docentes e alunos da Unioeste. Quanta coisa boa!

Na formatura do meu irmão, predominavam orgulho e alegria. E a batalha continuava... No terceiro ano de faculdade perdi minha avó, que depois de suportar pontes de safena, mamária, cateterismos, angioplastias e a perda do marido (meu avô retornou para Araçatuba logo após o falecimento de meu pai) e de seu único e amado filho, sucumbiu a um “derrame cerebral”.

Por algumas vezes pensei em desistir... da faculdade, da vida, e até de Deus... mas Ele é bom e justo e nunca me abandonou. Manteve-me rodeado de verdadeiros amigos, de pessoas de boa índole e que semeiam o bem, hoje doutores espalhados pelo Brasil e pelo mundo, mas com os mesmos propósitos (de exercer a medicina em sua plenitude). Com os anos, aprendi que podemos fazer nossas escolhas, mas não decidir, categoricamente, como será o futuro de nossas vidas. Compreendi que o ser humano diferencia-se dos outros seres vivos exatamente porque decide, racionalmente, o que quer ser e fazer. Aprendi também que Deus não planeja, designa ou deseja, mas permite que o mau aconteça.

Nesse meio tempo, a Ana iniciava sua faculdade de enfermagem e, inevitavelmente, nos tornávamos todos profissionais da área da saúde. Ofícios tão belos, mas ao mesmo tempo sob olhares tão inescrupulosos. O Nelson concluía sua residência em urologia. Posteriormente, repassara a mim os conhecimentos adquiridos em sua formação profissional. Foi meu tutor na vida e na profissão. Obrigado meu irmão. Agora, somos 2 urologistas. As nossas escolhas nos distanciaram fisicamente. Eu optei por vir pra Francisco Beltrão, e logo convidei a Ana pra trabalharmos juntos.

Casei-me em 2004, no dia da minha formatura. Má, um anjo em minha vida. Esposa extrovertida e determinada. Sempre ao meu lado, disposta a encarar a vida, seja o destino qual ou onde fosse. Linda mãe e pessoa. Cuida de pertinho dos nossos filhos, com amor intenso, e dos irmãos e dos pais como ninguém. A cuidadora da família.

Tivemos 3 filhos - Sofia, 15 - Davi, 13 e Lara, 9. Filhos amáveis.

Sofia: menina linda, inteligente, objetiva e determinada. Sabe bem o que quer. Educada, mas não muito tolerante. Líder nata, como o papai. Amiga e parceira. Quase namorada.

Davi: um ser humano incrível. Tem um coração que não cabe dentro dele. Criança do bem - rodeado de amigos. Carismático - conquista a atenção de todas as idades. Personalidade rara.

Lara: criança autêntica, amorosa e sensível ao extremo. Amiga sincera. Minha nenê. Aos 5 aninhos, sofreu intensamente, calada. Lutou contra o mau-caratismo do mal.

Diante da correria e rotina desgastantes, confesso que Deus sempre foi um bom pai em minha vida, orientando-me a fazer as escolhas certas mesmo em situações delicadas. Abençoou a minha família, minha esposa e meus filhos com sua inesgotável misericórdia. Obrigado meu Pai, por todo o sofrimento que passei, por todas as “cacetadas” da vida, pelos espinhos, pela comida insossa que provei, pela água suja que tomei. E até pelo sacrifício da reclusão desonesta. Mas por aqui também cresci! Obrigado por me fazer enxergar a vida como ela é - ao vivo - e não dos bastidores. Nesses dias de injustiça de uma justiça humana, que se mostra falível pelo poder interpretativo e autoritário, fortifiquei a minha alma (meu coração), meu espirito (minha razão) e meu corpo (jejuando por horas a fio). Antecipei a minha quaresma.

Em 15 anos de medicina, 10 de Francisco Beltrão, 15 de paternidade, 22 de matrimônio, 5 de docência, 6 de graduação, 6 de pós-graduação e 40 anos de vida intensamente vividos, acredito que já tenho ética, caráter e coragem pra julgar o que é certo ou errado. Frustrações, traições, decepções, injúrias e conflitos fazem parte do nosso cardápio existencial.

Sei que tenho falhas e defeitos, especialmente como pessoa, mas raramente decepcionei a minha profissão e princípios de vida. Sou daqueles médicos que ainda conseguem ver uma pessoa por detrás de uma doença. Se preciso, daria a minha vida pela vida de um paciente. Presarei até o último dia de minha vida pelos bens mais preciosos que tenho: meu nome - reputação - esposa - filhos e amigos.

Meu desobrigado aos maleficentes e persuadidos; meu obrigado aos inexpressíveis e ponderados, e meu muito obrigado a minha família, aos meus verdadeiros amigos e aos desconhecidos, porém justos e de bom caráter.

Não deixo aqui um ponto final, mas uma vírgula, pois continuarei a escrever, verdadeiramente, a minha história.


Dr. Luís Fernando Dip
Médico Urologista e Cirurgião Geral
CRM/PR 21524 | RQE 348 | RQE 21412
Dip Clínica de Urologia
46 3055.4474
Rua Curitiba, 1970 - Ed. Aline - Centro - Francisco Beltrão/PR